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    Devemos aprender a discordar sem atacar

    Quem sou
    Joe Dispenza
    @joedispenza
    FONTES CONSULTADAS:

    wikipedia.org

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    aviso de conte√ļdo

    As discrep√Ęncias n√£o s√£o ruins. O que √© ruim √© n√£o saber discordar. Atacar quem pensa diferente. Exclua o dissidente. Para nos fecharmos ao confronto apenas porque questiona aquilo em que acreditamos.

    Em vez disso, o diálogo socrático facilita um confronto respeitoso entre duas pessoas que usam argumentos convincentes que promovem a reflexão e o raciocínio para chegar à resposta mais precisa possível. Ambas as pessoas têm a oportunidade de praticar a arte da dissidência. Abertamente.

    No entanto, n√£o somos nem S√≥crates nem estamos na Atenas cl√°ssica. Vivemos em uma sociedade cada vez mais polarizada, onde as pessoas s√£o atacadas mais do que seus argumentos com o objetivo de impor uma verdade que limita o pensamento cr√≠tico. Portanto, n√£o √© surpreendente que as discuss√Ķes degeneram rapidamente em insultos e ataques pessoais.



    Identificando-nos excessivamente com ideias, acreditando que somos o que pensamos

    N√£o √© incomum nos encontrarmos tendo uma discuss√£o acalorada com algu√©m sobre algo sobre o qual n√£o temos certeza o suficiente ou sobre o qual n√£o temos informa√ß√Ķes suficientes. √Č prov√°vel que mais tarde, com a cabe√ßa fria, percebamos que exageramos. Tomamos suas palavras como um ataque pessoal, como se o mero desacordo implicasse que o outro se tornara nosso inimigo.

    As emo√ß√Ķes s√£o um grande obst√°culo que nos impede de discordar respeitosamente. Quando as palavras voam pelo ar como dardos controlados remotamente, elas atingem nosso c√©rebro reptiliano, mesmo antes de estarmos totalmente conscientes de seu significado. Ent√£o as emo√ß√Ķes assumem e a raz√£o desaparece.

    As palavras que classificamos como "perigosas" e que desencadeiam este processo de abdução emocional são aquelas que "atacam" a nossa identidade. O problema é que, quando nos identificamos excessivamente com nossas ideias, qualquer coisa que as questione é percebido como um ataque pessoal.



    Se acreditamos que somos o que pensamos, quando algu√©m discorda e questiona algumas de nossas cren√ßas mais profundas, percebemos isso como um ataque ao nosso "eu". N√£o podemos tomar a dist√Ęncia psicol√≥gica necess√°ria, ent√£o as emo√ß√Ķes assumem o controle e respondemos sem l√≥gica ou argumentos. Portanto, para dominar a arte da dissid√™ncia, devemos manter uma certa equidist√Ęncia de nossas id√©ias.

    Quando a discrep√Ęncia √© percebida como uma trai√ß√£o

    N√£o atribu√≠mos o mesmo valor a todas as palavras. A dissid√™ncia que vem de nossos c√≠rculos de confian√ßa mais √≠ntimos, ou de grupos com os quais nos sentimos identificados, pode ser mais dolorosa e gerar rea√ß√Ķes emocionais mais intensas. N√£o levamos as palavras de uma pessoa que n√£o nos conhece nas redes sociais t√£o a s√©rio quanto as cr√≠ticas de um amigo.

    Temos que partir do fato de que opini√Ķes, ideias e narrativas nos ajudam a determinar "quem est√° do nosso lado". Eles s√£o um tipo de indicador que nos diz de forma mais ou menos confi√°vel em quem podemos confiar e em quem n√£o podemos.

    Portanto, embora possa parecer paradoxal, o pre√ßo a pagar pela discord√Ęncia pode ser menor quando discordamos de pessoas que n√£o pensam como n√≥s e n√£o fazem parte do nosso c√≠rculo de confian√ßa ou dos grupos com os quais nos identificamos.

    O que √© realmente dif√≠cil √© aprender a n√£o concordar com quem est√° ao nosso redor, com o grupo que nos acolhe e do qual nos sentimos pertencer, o grupo em que colocamos nossos afetos e em que confiamos para nos apoiar quando as coisas correm mal. A discord√Ęncia nesse grupo √© freq√ľentemente percebida como uma trai√ß√£o pessoal dif√≠cil de administrar.


    Isso √© confirmado por um estudo realizado na Monash University, no qual foi apreciado que, quando temos que discordar das pessoas mais pr√≥ximas de n√≥s, podemos experimentar uma forte disson√Ęncia cognitiva. Na pr√°tica, nosso c√©rebro reage como se as ideias do outro fossem nossas, o que gera aquela cis√£o interna que causa ansiedade.


    N√≠veis de discrep√Ęncia, do insulto √† refuta√ß√£o

    Estamos todos cheios de contradi√ß√Ķes. Precisamos de contato com os outros, bem como de algum grau de aprova√ß√£o e valida√ß√£o social. Precisamos nos sentir parte do grupo. Mas tamb√©m precisamos nos sentir √ļnicos e diferentes. √Č por isso que sentimos a necessidade de discordar. N√≥s nos autoafirmamos por meio das diferen√ßas, literal ou simbolicamente.

    Neste diálogo social é normal que oscilemos entre acordo e desacordo. Na verdade, as ideias mais brilhantes e inovadoras geralmente surgem da dissidência, é uma janela aberta para novas maneiras de ver e compreender o mundo. Mas devemos aprender a discordar com respeito e lógica, porque somente assim ocorre uma mudança positiva.

    O ensaísta Paul Graham determinou uma série de níveis de desacordo que podem nos guiar no caminho da dissidência respeitosa, ao mesmo tempo que nos permitem identificar pessoas que nos desrespeitam nessa troca de ideias.

    ‚ÄĘ Insultos. √Č a forma mais baixa de desacordo e provavelmente a mais comum. Nesse caso, n√£o h√° racionalidade ou argumenta√ß√£o porque a dissid√™ncia √© baseada no insulto. Voc√™ nem d√° aten√ß√£o √† ideia, vai direto aos insultos de forma grosseira, evitando qualquer possibilidade de di√°logo.

    ‚ÄĘ Uma discuss√£o com uma pessoa. √Č uma forma de dissid√™ncia em que n√£o s√£o apresentadas raz√Ķes imperiosas, mas a pessoa √© atacada diretamente por quem √© ou por seus atos, totalmente irrelevantes para o caso. Na pr√°tica, ao inv√©s de refutar os argumentos, quem recorre ao argumentum ad hominen se limita a dizer que o outro n√£o tem autoridade porque n√£o anda em c√≠rculos respeit√°veis ‚Äč‚Äčou j√° usou drogas, por exemplo.


    ‚ÄĘ Resposta ao tom. Nesse caso, o argumento n√£o √© atacado, mas sim o tom que a outra pessoa usou. Em vez de indicar o erro no racioc√≠nio oposto, a pessoa simplesmente ataca o tom arrogante, fr√≠volo ou raivoso. Portanto, a ideia central n√£o √© refutada, mas o ataque √© dirigido √†s formas.


    ‚ÄĘ Contradi√ß√£o. Nesse n√≠vel de dissid√™ncia, voc√™ para de atacar a pessoa para se concentrar na ideia em discuss√£o. No entanto, o argumento contra apenas apresenta uma ideia oposta com pouca ou nenhuma justificativa. Na pr√°tica, a pessoa simplesmente diz o contr√°rio, mas sem fornecer qualquer evid√™ncia para apoiar sua afirma√ß√£o.

    ‚ÄĘ Contra-argumento. √Č a primeira forma convincente de desacordo que tenta provar algo. O problema √© que o contra-argumento geralmente √© uma contradi√ß√£o, e n√£o um argumento em si, uma vez que geralmente toca em um assunto diferente. Por exemplo, diante da ideia de que ‚Äúas crian√ßas precisam de brinquedos para desenvolver suas habilidades‚ÄĚ, um contra-argumento indicar√° que ‚Äúo mais importante √© o amor, a aten√ß√£o e o cuidado que as crian√ßas recebem‚ÄĚ. Nesse caso, mesmo que o contra-argumento seja verdadeiro, ele n√£o refuta a ideia prim√°ria.

    ‚ÄĘ Refuta√ß√£o. A forma de desacordo mais convincente √© a refuta√ß√£o, embora tamb√©m seja a mais rara, porque requer mais trabalho intelectual. Nesse caso, partimos dos argumentos do outro para explicar por que sua tese n√£o se sustenta. Consiste em encontrar o erro em um t√≥pico e explic√°-lo usando dados, justificando ou usando evid√™ncias.

    Em todo caso, para praticar com sucesso a arte da dissid√™ncia, √© importante que nos concentremos em refutar o ponto central, evitando contorn√°-lo para n√£o cair em discuss√Ķes in√ļteis e irrelevantes. Depois de identificar a ideia central de que trata a discuss√£o, precisamos buscar argumentos s√≥lidos para refut√°-la.

    Devemos lembrar que no mar social em que nadamos nem sempre √© f√°cil nos orientarmos e muitas vezes n√£o temos plena consci√™ncia das correntes que nos empurram para um lado ou para o outro. No entanto, a arte do desacordo consiste em exercer nossa liberdade para a discrep√Ęncia, permitindo que o outro tamb√©m a exer√ßa.

    Afinal, discordar vem da palavra latina ‚ÄúdiscrepńĀre‚ÄĚ, que significa soar diferente ou ter uma opini√£o diferente. N√£o significa estar certo ou estar de posse da verdade, mas apenas apresentar um ponto de vista diferente que pode oferecer uma perspectiva diferente sobre as quest√Ķes complexas do mundo.

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