Carnitina e exercício


Introdução

Antes de analisar especificamente o papel da carnitina no exerc√≠cio motor, o impacto que uma poss√≠vel defici√™ncia deste composto poderia exercer e como remedi√°-lo integrando-o na dieta, √© bom resumir brevemente algumas no√ß√Ķes essenciais sobre a carnitina.



  • A carnitina √© um derivado do amino√°cido lisina; como tal, cont√©m carbono, hidrog√™nio, oxig√™nio e nitrog√™nio (C, H, O, N) e √© principalmente sintetizado no f√≠gado e nos rins.
  • Sua forma ativa √© a L-carnitina.
  • Desempenha fun√ß√Ķes decisivas para a sa√ļde e a vida, como:
    • Ele permite que os √°cidos graxos de cadeia longa entrem na mitoc√īndria, onde s√£o oxidados para produzir energia na forma de mol√©culas de ATP (trifosfato de adenosina).
    • Estabiliza os n√≠veis de acetil-CoA e Coenzima A na mitoc√īndria, liberando o acetil residual dos processos de oxida√ß√£o (respons√°veis ‚Äč‚Äčpela produ√ß√£o de ATP), evitando assim o efeito t√≥xico de qualquer ac√ļmulo.
  • O corpo humano concentra a carnitina sobretudo onde √© necess√°ria, portanto no m√ļsculo esquel√©tico e no m√ļsculo card√≠aco (cora√ß√£o).
  • Pode ser obtido a partir de alimentos, especialmente de origem animal e, em particular, de carnes vermelhas e miudezas.
  • A bioss√≠ntese end√≥gena (isto √©, a produ√ß√£o aut√īnoma do organismo) √© o resultado de uma s√©rie de rea√ß√Ķes enzim√°ticas; nem todos os √≥rg√£os s√£o capazes de realiz√°-lo completamente.
  • Geralmente n√£o √© um nutriente essencial porque, em condi√ß√Ķes normais, √© produzido pelo corpo; no entanto, existem condi√ß√Ķes transit√≥rias, situa√ß√Ķes especiais ou outras causas que podem levar a uma defici√™ncia ou diminui√ß√£o dos n√≠veis de carnitina.
  • Em doen√ßas gen√©ticas, a defici√™ncia de carnitina tem efeitos muito s√©rios na sa√ļde do cora√ß√£o e al√©m.
  • Carnitina foi proposta e testada, em suas v√°rias formas qu√≠micas (L-carnitina, Acetil-L-Carnitina e Propionil-L-Carnitina), para o tratamento de complica√ß√Ķes do sistema nervoso central, card√≠acas, doen√ßas degenerativas do sistema nervoso central, fadiga cr√īnica e n√£o s√≥.
  • Carnitina e suas formas esterificadas (Acetil-L-Carnitina e Propionil-L-Carnitina) est√£o inclu√≠das na composi√ß√£o de drogas reais e suplementos alimentares. Os medicamentos √† base de carnitina s√£o usados ‚Äč‚Äčpara o tratamento de formas patol√≥gicas de defici√™ncia. Por outro lado, como suplemento alimentar, a carnitina √© utilizada em suplementos desportivos como uma mol√©cula com poder ergog√©nico para as modalidades de endurance e como rem√©dio para combater a astenia, a fadiga e a fadiga f√≠sica e mental.

Vamos agora tentar entender como a carnitina é essencial para a produção de energia (trifosfato de adenosina - ATP).



Gordura, Carnitina e ATP

√Ācidos graxos: digest√£o, absor√ß√£o e transporte

A energia necess√°ria para os processos celulares e metab√≥licos (que s√£o a base essencial de qualquer fun√ß√£o corporal) √© armazenada e liberada por uma mol√©cula chamada trifosfato de adenosina ou ATP (do ingl√™s Adenosine TriPhosphate). Essa energia est√° contida nas liga√ß√Ķes entre os tr√™s grupos fosfato (PO4-) e a adenosina, que se estabelecem ao final de uma complexa s√©rie de rea√ß√Ķes, a partir das quais ocorre a oxida√ß√£o dos nutrientes energ√©ticos (prote√≠nas, carboidratos e gorduras). lugar.

As famosas "calorias" dos alimentos correspondem à soma da energia potencialmente obtida da oxidação de:

  • Amino√°cidos proteicos (4 kcal / g);
  • Carboidratos (3,75 kcal / g);
  • Gorduras ou lip√≠dios (9 kcal / g).

Portanto, os lipídios são as macromoléculas que possibilitam a produção de mais calorias - não é de surpreender que representem o substrato de reserva do nosso organismo (gorduras do tecido adiposo). Na natureza, os ácidos graxos são agrupados em triglicerídeos (glicerol + 3 ácidos graxos); pois isso os protege da degeneração e os torna mais convenientes para armazenamento e transporte.


As gorduras dietéticas devem primeiro ser digeridas (através da ação da saliva, emulsão biliar e lise enzimática pancreática / intestinal) e subsequentemente absorvidas no intestino delgado. As de cadeia curta vão direto para o sangue, enquanto as médias e longas vão para a circulação linfática. Em termos simples, quase todos os lipídios são transportados na linfa e no sangue, até as células-alvo, por transportadores especiais chamados lipoproteínas (quilomícrons, VLDL, LDL, IDL e HDL).


Import√Ęncia da carnitina e mitoc√īndrias na produ√ß√£o de ATP

Os ácidos graxos destinam-se principalmente às células do tecido muscular, onde são utilizados para a produção de calorias, ou ao tecido adiposo, onde são armazenados novamente em triglicerídeos de reserva.

Ao contr√°rio dos carboidratos, que podem produzir pequenas quantidades de energia mesmo na aus√™ncia de oxig√™nio, os √°cidos graxos devem ser oxidados dentro da mitoc√īndria (processo de beta-oxida√ß√£o dos √°cidos graxos), portanto, a presen√ßa de oxig√™nio √© essencial.

√Č aqui que entra a carnitina que, ao se ligar aos √°cidos graxos de cadeia longa e permitir que eles passem pela membrana, √© o √ļnico meio de transporte desses nutrientes dentro da matriz mitocondrial.

√Č fundamental sublinhar a import√Ęncia da oxida√ß√£o mitocondrial para a vida, para a sa√ļde e para a efici√™ncia do nosso organismo; os √°cidos graxos, em particular, oferecem uma maior contribui√ß√£o metab√≥lica durante a atividade muscular.


A carnitina é, portanto, também indispensável no exercício físico e no desempenho esportivo, especialmente aeróbio e prolongado.

Processo de desintoxicação

Outra propriedade não desprezível da carnitina é a desintoxicação.

Como mencionado, de fato, gra√ßas ao seu mecanismo de a√ß√£o, a carnitina √© capaz de prevenir o ac√ļmulo de grupos acetila e grupos acila dentro da mitoc√īndria que s√£o gerados ap√≥s os processos de beta-oxida√ß√£o dos √°cidos graxos. Na verdade, se esses grupos n√£o fossem removidos, eles se acumulariam dentro da mitoc√īndria, exercendo uma a√ß√£o t√≥xica.


Tamb√©m esta tarefa - juntamente com a produ√ß√£o de energia - √© de fundamental import√Ęncia durante a atividade f√≠sica motora.

Deficiência de carnitina: causas e sintomas

Quando falamos sobre a defici√™ncia de carnitina, nos referimos a uma s√©rie de condi√ß√Ķes patol√≥gicas caracterizadas por n√≠veis drasticamente baixos dessa preciosa mol√©cula. As defici√™ncias ou defici√™ncias da carnitina podem ser divididas em:

  • Defici√™ncia prim√°ria de carnitina, causada por muta√ß√Ķes que afetam genes que codificam prote√≠nas envolvidas no chamado sistema carnitina (este √ļltimo √© o conjunto de rea√ß√Ķes que permitem a carnitina realizar sua tarefa e que v√™em o envolvimento n√£o s√≥ deste derivado de amino√°cido, mas tamb√©m de seus derivados, prote√≠nas e transportadores espec√≠ficos localizados na membrana celular e mitocondrial);
  • Defici√™ncias secund√°rias de carnitina que podem ser devido a:
    • Aumento da necessidade (pode ocorrer em caso de sepse ou infec√ß√Ķes graves, ap√≥s cirurgia, etc.);
    • Ingest√£o reduzida (ocorr√™ncia que pode ocorrer ao seguir dietas incorretas ou inadequadas, quando submetido √† nutri√ß√£o parenteral prolongada por longos per√≠odos, etc.);
    • Perda excessiva (pode ser induzida pela ingest√£o de certos tipos de medicamentos, diarreia excessiva, hemodi√°lise, etc.);
    • S√≠ntese reduzida induzida por patologias que afetam os rins e o f√≠gado (por exemplo, cirrose, insufici√™ncia renal, etc.).

A sintomatologia e seu aparecimento podem variar de acordo com o tipo de déficit considerado e de acordo com a gravidade da doença. No entanto, os dois tipos de deficiência apresentam alguns sintomas comuns, como:

  • Fraqueza muscular e fadiga;
  • Ac√ļmulo de lip√≠dios no cora√ß√£o, m√ļsculos e f√≠gado;
  • Cardiomiopatia;
  • epatopatia;
  • Doen√ßas renais e do sistema nervoso.

Além disso, em casos mais graves, até a morte pode ocorrer.

Como pode ser visto, independentemente da causa desencadeadora, quando a carnitina √© deficiente no corpo, a for√ßa muscular √© comprometida e se desenvolvem fadiga e fraqueza. Com efeito, a carnitina concentra-se sobretudo (mas n√£o exclusivamente) ao n√≠vel dos m√ļsculos onde desempenha o seu papel fundamental na produ√ß√£o de energia. Sua falta ou insufici√™ncia n√£o permite o transporte adequado dos √°cidos graxos dentro da mitoc√īndria, conseq√ľentemente, eles n√£o podem ser oxidados e a produ√ß√£o de ATP - portanto, de energia - n√£o ocorre. Sem a principal fonte de energia, as c√©lulas ficam impossibilitadas de realizar os processos que garantem seu funcionamento e sobreviv√™ncia, portanto, tecidos e √≥rg√£os s√£o afetados.

tratamento

O tratamento da defici√™ncia de carnitina envolve a administra√ß√£o de medicamentos √† base de L-carnitina ou seus √©steres (acetil-L-carnitina, propionil-L-carnitina) por via oral ou intravenosa, conforme apropriado. Nessas situa√ß√Ķes, a interven√ß√£o do m√©dico √© sempre necess√°ria.

Fadiga Física e Carnitina

Dada a indispens√°vel tarefa desempenhada pela carnitina na produ√ß√£o de energia ao n√≠vel da mitoc√īndria, muitos estudos t√™m sido realizados com este derivado de amino√°cido para melhor compreender as suas propriedades e fun√ß√Ķes biol√≥gicas. De alguns deles, concluiu-se que em algumas condi√ß√Ķes particulares (por exemplo, durante a convalescen√ßa, durante o envelhecimento, etc.) pode haver uma diminui√ß√£o ou insufici√™ncia dos n√≠veis de carnitina que, no entanto, n√£o se manifestam em n√≠veis dr√°sticos e patol√≥gicos. aqueles descritos acima.

Em particular, o aparecimento de fadiga, fadiga física, redução da massa muscular e até fadiga mental têm sido associados à redução dos níveis de carnitina. Nestes casos, a suplementação com L-carnitina ou seus ésteres (acetil-L-carnitina e propionil-L-carnitina) foi proposta como um possível remédio. A esse respeito, citamos alguns estudos realizados sobre o uso da carnitina e suas formas esterificadas que mostraram como:

  • A administra√ß√£o de L-carnitina em crian√ßas convalescentes na dose de 500-1000 mg por dia pode levar a um aumento do apetite e uma redu√ß√£o da astenia.
  • A administra√ß√£o de L-carnitina em pacientes idosos na dosagem de 2 gramas por dia durante um m√™s levou a um aumento da massa muscular e uma redu√ß√£o de cerca de 40% da fadiga f√≠sica e mental.
  • A administra√ß√£o de propionil-L-carnitina em idosos na dose de 2 gramas por dia por um per√≠odo de 24 semanas levou a uma melhora no bem-estar do paciente e √† redu√ß√£o da fadiga f√≠sica e mental.

Exercício e Carnitina

Diante da import√Ęncia da carnitina nos processos que levam √† produ√ß√£o de energia nos m√ļsculos, diversos estudos t√™m sido realizados para investigar suas potenciais aplica√ß√Ķes no exerc√≠cio f√≠sico e na pr√°tica esportiva.

A esse respeito, citamos um estudo realizado em pacientes idosos que mostrou que a administração de carnitina na dose de 1,5 gramas por dia por um período de 10 semanas pode levar ao aumento da força muscular e redução da fragilidade.

As propostas para a integra√ß√£o da carnitina no desporto justificam-se pelo facto de - dada a sua capacidade de optimizar a utiliza√ß√£o dos √°cidos gordos para produzir energia e desintoxicar a mitoc√īndria dos res√≠duos provenientes do processo de beta-oxida√ß√£o - a sua utiliza√ß√£o pode ser √ļtil. Para melhorar. resist√™ncia muscular e desempenho atl√©tico e para promover a recupera√ß√£o.

Um estudo realizado em volunt√°rios saud√°veis ‚Äč‚Äčdurante o treinamento progressivo (triathlon) mostrou que a administra√ß√£o de carnitina na dosagem de 2 gramas por dia durante 24 semanas foi capaz de produzir uma melhora no desempenho f√≠sico em indiv√≠duos que tomaram o derivado de amino√°cido. para aqueles que tomaram o placebo.

Para ser justo, no entanto, deve-se notar que a eficácia decorrente do uso da carnitina no esporte é, na realidade, objeto de debate. Se por um lado, de fato, há estudos que comprovam sua utilidade; por outro lado, alguns estudos não concordam com o que acaba de ser afirmado.

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